Da Amazônia a Viena: a trajetória da UNIR no 32º Vis Moot e o poder transformador da diversidade na arbitragem
Da Amazônia a Viena: a trajetória da UNIR no 32º Vis Moot e o poder transformador da diversidade na arbitragem
Josué da Silva Aires[1]
A participação no Willem C. Vis International Commercial Arbitration Moot sempre foi um sonho distante para muitos estudantes da região Norte do Brasil. Distâncias geográficas, barreiras econômicas e limitações institucionais costumam tornar inviável a presença de universidades amazônicas em competições internacionais de grande porte. No entanto, em 2025, a Universidade Federal de Rondônia (UNIR) rompeu essas barreiras ao representar o estado de Rondônia no 32º Vis Moot, realizado em Viena, Áustria.
Essa conquista foi fruto direto do projeto de extensão “Caminhos Alternativos para a Justiça: Direito Arbitral e Mediação na Resolução de Conflitos na Amazônia”, desenvolvido no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Extensão (PIBEC/UNIR). O projeto tem como objetivo expandir o conhecimento sobre métodos adequados de resolução de conflitos, como a arbitragem e a mediação, a partir de uma perspectiva regionalizada, conectando a prática acadêmica com as necessidades sociais e jurídicas da Amazônia.
Desde sua criação, o projeto tem promovido oficinas, rodas de conversa e eventos interinstitucionais voltados à democratização do ensino da arbitragem, com apoio de docentes, pesquisadores e parceiros locais, como a Subcomissão Universitária da OAB Rondônia. Essa articulação permitiu que a UNIR consolidasse uma base sólida de formação prática, possibilitando que seus estudantes integrassem o Grupo de Estudos em Arbitragem de Rondônia (GEARO) — responsável por representar a universidade no Vis Moot.
O caminho até Viena: preparação e aprendizado
O período de preparação para a competição foi marcado por intenso estudo, pesquisa jurídica e colaboração interdisciplinar. A equipe da UNIR dedicou-se à análise da Convenção de Viena sobre Compra e Venda Internacional de Mercadorias (CISG) e da Lei Modelo UNCITRAL, fundamentos centrais do caso-problema da edição de 2025.
Durante os meses que antecederam o torneio, o grupo participou de Pre-Moots nacionais e internacionais, entre eles o Pre-Moot do CAM-CCBC, realizado nas cidades de São Paulo e, após, em Hamburgo, Alemanha. Esse evento, sediado na Bucerius Law School, reuniu equipes de universidades renomadas, como West Bengal, Göttingen e Kiel, e contou com a presença do professor Stefan Kröll, um dos maiores nomes na arbitragem internacional.
A experiência em Hamburgo foi essencial para o amadurecimento da equipe. A troca de ideias, o contato com árbitros e a observação de painéis de alto nível técnico ampliaram a visão crítica dos participantes sobre a arbitragem internacional e o papel da argumentação jurídica em ambientes multiculturais. A preparação culminou na participação oficial no 32º Vis Moot, em Viena, entre os dias 11 e 17 de abril de 2025, reunindo mais de 380 universidades de todo o mundo.
A preparação da equipe envolveu um esforço constante e integrado. Cada integrante contribuiu para o desenvolvimento dos argumentos, para a elaboração dos memoriais e para a revisão das estratégias processuais. Esse trabalho conjunto permitiu que o grupo amadurecesse tecnicamente e transformasse cada etapa do percurso em uma verdadeira aula sobre o alcance global da arbitragem e sobre a responsabilidade de representar o Norte do Brasil em um espaço historicamente associado a grandes centros acadêmicos.
Reconhecimento e inclusão: o selo NewGen Diversity
A trajetória do grupo rendeu reconhecimento especial: a equipe da UNIR recebeu o selo “NewGen Diversity”, concedido pelo CAM-CCBC a equipes que promovem inclusão, representatividade e diversidade no ambiente da arbitragem. Essa distinção simboliza o esforço coletivo de um grupo de estudantes amazônidas que, com recursos limitados e muita dedicação, conseguiu se destacar em uma das maiores competições jurídicas do mundo.
Mais do que um título, o selo representa uma conquista social. Ao lado do patrocínio concedido pelo CAM-CCBC, que viabilizou a viagem internacional, ele reafirma o compromisso da instituição com a democratização do acesso à educação e à arbitragem, garantindo que vozes diversas possam ocupar espaços antes inacessíveis.
Extensão e transformação social na Amazônia
Paralelamente à preparação para o Vis Moot, o projeto PIBEC continuou desenvolvendo suas atividades de extensão na UNIR. Foram realizadas reuniões, seminários e oficinas voltadas à mediação e à arbitragem, incluindo o desenvolvimento de um evento jurídico em parceria com a OAB Rondônia, voltado a estudantes e à comunidade.
Essas ações não apenas difundem o conhecimento jurídico, mas também ampliam oportunidades de transformação local. A mediação e a arbitragem, quando consideradas no contexto amazônico, apresentam-se como ferramentas que podem contribuir para o tratamento de conflitos fundiários, ambientais e comunitários, especialmente em aspectos que admitam abordagem consensual, promovendo soluções mais céleres e culturalmente sensíveis. Assim, o projeto contribui diretamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente o ODS 4 (Educação de Qualidade), o ODS 10 (Redução das Desigualdades) e o ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes).
Integrar ensino, pesquisa e extensão em um contexto periférico é mais do que uma atividade acadêmica — é um ato político de resistência e transformação. Participar de um evento internacional como o Vis Moot, portanto, não é apenas um passo na formação jurídica, mas uma afirmação de que a educação pública pode e deve alcançar os espaços de excelência global.
Uma história de oportunidade e superação
A trajetória da equipe também incorpora histórias que revelam o impacto social da educação pública na região amazônica. Entre seus integrantes, há estudantes que iniciaram a formação na rede pública, enfrentando desafios decorrentes de contextos marcados por vulnerabilidade econômica e por acesso limitado a oportunidades educacionais, como cursos de línguas ou programas de preparação internacional.
Essas trajetórias refletem realidades comuns a muitos jovens amazônidas, cuja presença na universidade representa um avanço significativo para grupos historicamente sub-representados nos espaços de formação jurídica. A força dessas vivências, construídas em bairros periféricos de Porto Velho e de outras localidades do estado, demonstra como a dedicação, o apoio institucional e a valorização da diversidade podem transformar caminhos e abrir portas antes inacessíveis.
Ao integrar estudantes com histórias tão diversas, a participação da UNIR no Vis Moot torna-se ainda mais simbólica: cada conquista acadêmica do grupo reforça a importância de ampliar a inclusão e de reconhecer talentos que, por muito tempo, permaneceram à margem das grandes iniciativas nacionais e internacionais em arbitragem.
Considerações finais
A experiência da UNIR no 32º Vis Moot transcende a competição. Ela simboliza o ingresso definitivo da região Norte no circuito acadêmico internacional da arbitragem e evidencia o poder da educação pública como instrumento de transformação social.
Cada etapa — das oficinas locais às audiências em Viena — demonstrou que talento, dedicação e propósito podem superar qualquer barreira geográfica ou econômica. A presença da UNIR nesse cenário é um marco para Rondônia e para a Amazônia, inspirando outras universidades e jovens a acreditarem que a excelência também nasce nas margens do mapa.
O selo NewGen Diversity e o apoio do CAM-CCBC confirmam que a inclusão é um pilar essencial para o futuro da arbitragem. A diversidade de histórias, origens e perspectivas é o que garante a legitimidade de um campo que busca, justamente, promover a justiça e o diálogo entre diferentes culturas.
Da Amazônia a Viena, essa trajetória reafirma uma mensagem simples, mas poderosa: a educação transforma, a diversidade fortalece e a arbitragem conecta mundos
[1] Josué da Silva Aires é graduando em Direito pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), bolsista PIBEC/UNIR no projeto “Caminhos Alternativos para a Justiça: Direito Arbitral e Mediação na Resolução de Conflitos na Amazônia” e integrante do Grupo de Estudos em Arbitragem de Rondônia (GEARO), representante da UNIR no Willem C. Vis International Commercial Arbitration Moot.

